De Felipe Morozini para Karina Di Cunto

Estava vivendo os últimos dias do último mês do resto da minha vida. Finalizando a venda de 10 anos de trabalho, empacotando antigas idéias, limpando memórias corporais e abrindo caminho para minha final conquista das Américas: iria subir de São Paulo até Montreal, a maior distancia por mim percorrida de uma vez só. Fisicamente e emocionalmente: esse trajeto ia em direção a um grande amor. E o que nos faz presentear senão o amor…

Prontamente se prontificou aquele que já havia recebido um Giftome de Londres, Felipe Morozini. Quantas ondas batem entre nós. Marolas de encontros ativados por terceiros, há sempre algo em mim mesma que se desperta quando me encontro com ele. Pode ser algo novo ou o de sempre, mas é sempre uma vontade de mais de mim.

Corri para sua casa poucos dias antes de minha viagem, com uma garrafa de água de coco e muita curiosidade sobre o que esse corpo criativo iria me ensinar.  Pra mim, debater com ele como ultrapassar barreiras de mesmices profissionais sem comprometer seus desejos de expressão, num momento de reavaliação da minha trajetória, era como sentar numa cadeira de escola. Sua passagem pela Índia, suas ligações espirituais, seu passado casando com meu presente. Era meu presente-encontro.

Saí de sua casa com o presente embalado em papel com fitas escrito Fragile. Subi do centro até a Angélica de busão para a depilação. De lá, esperou encostado à parede minha última sessão de shirodhara na Vila Madalena. Presenciou o delicioso almoço no Alternativa Casa do Natural. Subiu no busão novamente até a Paulista. Desceu a Augusta, me acompanhou nas compras de artesanato indígena. Nos despedimos do Frank em última visita à sua casa na vilinha. Fez todo o trajeto SP-Miami-Montreal na cabine, passou por todos os raios-X sem fazer alarde, chegou a Val-David, passou por Val-Morin até chegar a Montreal, no dia da entrega.

Haviam poucos dias da minha chegada ao Canadá e fui a Montreal para o show de três grandiosos músicos brasileiros. Aproveitei a ocasião para encontrar a pessoa atrás do e-mail heydontworrybehappy. Karina, linda espécime da fauna brasileira, sua amiga de adolescência, deixou o Brasil há um bom tempo, também passou por Londres e há alguns anos reside no Canadá. Num bar, embaladas por uma boa sangria, aprendi que devo aprender francês se quiser trabalhar bem por aqui, que posso dirigir sem carteira de motorista canadense por 6 meses, que aquela era a região de boas lojas de artigos para o lar, que ganhei uma nova casa para me hospedar na cidade e que o mantra “o inverno daqui é babado” pode ajudar a me tirar daqui sem muitas delongas.

Foi a primeira vez que entreguei flores. E como era de se esperar, não era um buquê, mas a imagem de flores desenhadas sobre uma das regiões mais áridas de São Paulo, o minhocão, lar de acolhimento e expressão do Felipe. Tal pôster, embalado por fitas sinalizando frágil, concretizava o sentimento de permanência daquilo que em sua essência é a  mais instantânea das expressões de vida e amor no mundo, flores. No frágil e no concreto, no chão e na parede, nas duas almas.

~ by giftome on October 11, 2010.

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